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Categoria: Coluna da meia-noite

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fev 07 2010

Casa Fernando Pessoa, um universo plural

 

Inaugurada em Novembro de 1993, a Casa Fernando Pessoa foi concebida pela Câmara Municipal de Lisboa como um centro cultural destinado a homenagear Fernando Pessoa e a sua memória na cidade onde viveu e no bairro onde passou os seus últimos quinze anos de vida, Campo de Ourique.

Possuindo um auditório, jardim, salas de exposição, objectos de arte, uma biblioteca exclusivamente dedicada à poesia, além de uma parte do espólio do poeta (objectos e mobiliário que pertenceram ao poeta e que são actualmente património municipal), a Casa Fernando Pessoa é um pequeno universo polivalente onde, nos seus três pisos principais, se realizam colóquios, sessões de leitura de poesia, encontros de escritores, espectáculos musicais e de teatro, conferências temáticas, workshops, exposições de artes plásticas, sessões de apresentação de livros, ateliers para crianças, numa programação o mais possível diversificada.

_________

Informação e imagem extraídas do site da Casa Fernando Pessoa:

http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/index.php?id=2233 

O português é de Portugal

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fev 06 2010

Enquanto a manhã não vem

Jorge Adelar Finatto

 

Escrevo no tarde da noite.

Confesso que pouco sei sobre este tempo e seus soturnos habitantes. Sou  parte do drama.

Sei o que sinto. E sentindo me dou conta que está ficando cada vez mais difícil sentir a realidade.

Faz poucos dias, em Porto Alegre, um menino com cerca de 10 anos foi morto dentro de casa com 34 facadas, num bairro pobre da cidade. Os assassinos seriam dois assaltantes, o caso está sendo investigado.

O menino estava sozinho enquanto a mãe trabalhava como doméstica.

Não sei o que fazer com isso. Estou mergulhado na escuridão que nos cerca.

Que sociedade é esta que gera monstros assim?

Que tipo de ser humano é capaz de cometer um crime dessa natureza?

Que justiça será capaz de reparar crimes como esse?

Quem devolverá a essa mãe o sentido de viver?

Que sentimento, ou falta de, faz com que o caso seja esquecido dias depois e ninguém mais fale no menino, na sua mãe, na casa destruída?

Quem se ocupará dessa dor depois que os jornais não tocarem mais no assunto?

O pouco que sei me diz que não foram apenas o menino e sua mãe que perderam algo irreparável.

A humanidade toda perdeu.

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jan 31 2010

Borges e a névoa do tempo

Jorge Adelar Finatto

Gradualmente, o aprazível universo o foi abandonando; uma insistente névoa apagou as linhas de sua mão, a noite se despovoou de estrelas, a terra era insegura sob seus pés. Tudo se afastava e se confundia. Quando soube que estava ficando cego, gritou; o pudor estóico ainda não fora inventado e Heitor podia fugir sem menoscabo. “Não verei mais (sentiu) nem o céu cheio de pavor mitológico nem este rosto que os anos vão transformar.” ¹

Jorge Luis Borges

 

Buenos Aires, calle Tomás Manuel de Anchorena, 1660. Neste endereço está a Fundación Internacional Jorge Luis Borges (http://www.fundacionborges.com/lafundacion/lafundacion.html).

Aqui se encontram objetos de uso pessoal que pertenceram a Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo, entre eles duas bengalas, além de manuscritos, fotografias, talismãs, medalhas, títulos, coisas curiosas como uma vestimenta de samurai, e livros, muitos livros, as primeiras edições de suas obras, e publicações de outros escritores, como Os Lusíadas, de Luís de Camões.

O lugar é silencioso. Os iniciados na obra de Borges vêm a esta casa numa peregrinação em busca da memória do mestre. Querem ver algum sinal, algum vestígio, saber se Borges de fato existiu ou se foi só um sonho sonhado pelo outro Borges, o fantasma que vaga pelos espelhos e bibliotecas.

  

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jan 26 2010

Ao que parte

Jorge Adelar Finatto

.

 Um pedaço de ti rompe a neblina.

Carlos Drummond de Andrade

 

Quem te acolherá

na distante cidade

que agora dorme

emoldurada

sob antigas luzes

abandonada

em si mesma?

 

atravessas o Atlântico

e gotas do mar

grande mar da diáspora

enchem teus olhos

 

quem tocará tua face

quando lá chegares

insone e áspero

no meio da ventania?

 

na cidade estrangeira

haverá alguém

esperando

em solidária vigília?

 

dói a memória

dos que partiram

e partindo perderam-se

no sombrio traçado

de um mapa rasgado

 

és palavra

na tenebrosa

escuridão

que te cerca

 

__________

Poema do livro Memorial da vida breve, Jorge Finatto, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.

Foto: Colonia del Sacramento, Uruguai. Jorge Finatto

jfinatto@terra.com.br

  

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jan 02 2010

Novas páginas da vida

Jorge Adelar Finatto

 

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Desejo a todos um 2010 com saúde, amor e harmonia. É lugar-comum, mas é sincero.

Vamos continuar sonhando e trabalhando por um Brasil mais justo, sem a sombra perversa da corrupção.

Que venha a tão esperada partilha da riqueza que nossa gente produz. Que venham a generosidade, a amizade verdadeira, o perdão.

Espero que cada um de nós colha, em 2010, segundo seu mérito.

Estou entre aqueles que só acreditam no esforço como forma de alcançar alguma coisa na vida.

O resto é construir casa de palha na ventania.

Ninguém é digno por acaso, alguém já disse. É isso.

Façamos por merecer o Novo Ano que acaba de nascer.

Um abraço.

 

___________

Foto: Jorge Finatto

http://ofazedordeauroras.blogspot.com/

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dez 19 2009

Um peixe vivo

Jorge Adelar Finatto

 

Em 1975 eu tinha menos de 20 anos, o coração batia no escuro e nada estava perdido.

Carregava comigo alguns poetas mortos. A palavra estava viva.

Esse tempo ficou adormecido como um pôr-de-sol no fundo do rio.

O tempo era noite calada. 

A ditadura militar maltratava o pensamento, a livre circulação da emoção e das ideias. Manchava com tarjas pretas a verdade nas bocas e nos jornais.

Mas havia gente que não desistia. Os pássaros resistiam na praça.

Escondida como um segredo, havia uma rua quieta com perfume de açucena.

Eu levava na alma a felicidade de estar vivo. Perdoai. Leia mais »

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dez 12 2009

As intermitências da primavera

Jorge Adelar Finatto

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Um dia ele sonhou ser feliz para sempre. Mas a realidade disse que isso não era possível. Pra sempre é muito tempo. A vida não dura tanto.

O amor - ou esse sentimento que aproxima pessoas solitárias e desamparadas como ele -  inaugurou datas no calendário, pintou de lilás e rosa o coração, tocou doces músicas no som do carro e do apartamento. Tornou-o uma pessoa melhor para si e para os outros.

Um dia, talvez, ela, que gostava tanto de gatos, retornará da nuvem onde foi habitar. Virá buscá-lo, como sempre fazia, para irem ao cinema, ao café, à livraria, ao Parque Harmonia ver o pôr-do-sol na beira do Guaíba.

Ela foi o único ser humano que conseguiu resgatá-lo da ilha. Morreu há três anos de uma doença que não vale a pena lembrar, foi embora depois de sorrir e dizer a ele que não devia se preocupar, tudo ia dar certo. Perdeu-a pouco antes de viverem juntos.

Teve relacionamentos, depois, que pouco duraram. Sente-se um morto-vivo sem a mulher que o acolheu na solidão de náufrago. Não consegue fazer o tipo leve, desses à vontade no mundo. Gosta de pensar nas coisas, procurar sentidos. Uma amiga disse-lhe que era muito certinho. A vida não era.

Sonhou ser, um dia, um pouco feliz. Leia mais »

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dez 05 2009

A cidade perdida: as origens

Jorge Adelar Finatto

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Uma cidade de fantasmas habita um lugar ermo, no cume das montanhas, nos Campos de Cima do Esquecimento.

O leitor talvez se pergunte por que, afinal, Passo dos Ausentes, lugar onde escrevo essas linhas, não aparece no mapa do Rio Grande do Sul nem em nenhum atlas.

Muitas vezes também me fiz essa pergunta. Não encontrei até hoje uma resposta plausível. Para nós, habitantes dessa cidade esquecida, a invisibilidade é um mistério difícil de entender.

Não nos veem e não nos sentem. 

Nós o que vemos é a andança das nuvens sobre os contrafortes da solidão. 

Oficialmente, não existimos. Não estamos no mapa.

De onde vem essa ausência?

A Sociedade Histórica, Filosófica e Geográfica de Passo dos Ausentes já encaminhou diversos expedientes aos órgãos do governo, em Porto Alegre, pedindo providências. As respostas são sempre evasivas. “Vamos examinar”, “estamos estudando”, “faltam dados verossímeis acerca da existência da cidade e sua história”.

Mas como? Acaso nos tomam por seres de papel e tinta? Leia mais »

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nov 28 2009

A face da palavra

 

Flor de hibisco

Jorge Adelar Finatto

 

 

 

Para a fúria

de todos os dias

a flor do hibisco

na lapela da praça

 

(amarela

                  branca

                                  vermelha)

 

suave notícia

para o coração

devastado Leia mais »

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nov 22 2009

Dois poemas de Heitor Saldanha

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Hoje enquanto tiver dinheiro

                                                 beberei

Depois

               entregarei ao garçom

                                           meu relógio de pulso

                                                    meus carpins de nylon

meus óculos de tartaruga (que nome bonito)

                                                    minha caneta tinteiro

e continuarei bebendo

                                       bebendo

                                                         sem literatura

                                                                           sem poema

                                                                                       sem nada.

Só.

Como se o mundo começasse agora.

Estou nesses conscientes estados de alma

em que não posso me salvar

                                                e nem salvá-la. Leia mais »

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nov 21 2009

O coração vê coisas que a cabeça não enxerga

 Jorge Adelar Finatto

 

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O livro nos faz atravessar noites em claro, subir os altos muros e voar. A leitura é um modo de libertação das prisões que nos cercam.

Poucas coisas nos tocam e dizem tanto como o poema. Um texto breve capaz de nos levar muito longe e muito fundo. A poesia devia ser parte integrante do currículo das escolas - inclusive  escolas de preparação à magistratura - pelo tanto de prazer, refinamento espiritual, apuro verbal e intelectual que proporciona.

Entrei em contato com o verso na adolescência. Menino pobre, encontrava livros nas bibliotecas. Perdi a conta de quantas tardes passei lendo na Biblioteca Pública do Estado, na rua Riachuelo, em Porto Alegre. Entusiasmado com o que lia, comecei a escrever silenciosamente.

Do outro lado da rua estava o Palácio da Justiça. Não imaginava que muitos anos depois iria trabalhar no Judiciário, primeiro como funcionário, depois como juiz.  

Em certos dias, no final da tarde, quando terminavam os julgamentos de que participava no Tribunal de Justiça,  me dirigia até a Biblioteca Pública para reencontrar um livro dos tempos de adolescente. Folhear suas páginas, naquele ambiente, era motivo de felicidade, uma visita sentimental ao menino e sua esperança. Leia mais »

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nov 14 2009

Os fundamentalistas

Jorge Adelar Finatto
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                  ”Arre, estou farto de semideuses!
                     Onde é que há gente no mundo? “
                                       Fernando Pessoa, Poema em Linha Reta    
                     
 
Tenho medo de quem nunca duvida das próprias certezas. A rigidez das mentes e corações é motivo de desolação. Questionar-se sobre o modo de ser e de fazer as coisas, repensar a vida, é exercício de humildade cada vez mais raro.

Estar aberto à dúvida não é fraqueza, mas capacidade de renovação.

Se a dúvida nos leva a continuar pensando e agindo da mesma maneira, está bem. Se não, muda-se.

O fundamentalismo, seja laico ou religioso, não torna as pessoas melhores nem mais felizes. Pelo contrário, espalha sofrimento, terror, morte.

O fundamentalista é dono de verdades absolutas a que só ele teve acesso. Ele é a pérola luminosa entre os perdidos habitantes das profundezas escuras.

Todo ato de imposição das próprias verdades e valores sobre o outro envolve violência e é inaceitável numa sociedade que se pretende democrática e livre. Leia mais »

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nov 08 2009

As amargas, não…

  Alvaro Moreyra

 

Agora é tempo de voltar. Para onde? Naturalmente para o céu, onde os anjos, irmãos remotos, que não desceram à terra, estão com a mesma infância e as mesmas asas. Eu não levo as asas com que vim. Desmanchei-as pela estrada. Levo as penas que sobraram. No percurso às avessas, encontro “um certo reino à esquina do planeta”. Dele recebi as primeiras imaginações. Descanso junto das sombras que me formaram assim, uma espécie de exilado. Se eu quisesse confessar do que fui construído, teria que dizer: de alguns poetas de Portugal e de alguns jesuítas de todo o mundo. O resto foi ornato. Bastante me pintaram. Bastante me rebocaram. Fiquei intacto sobre os velhos alicerces, no mesmo pé direito, com o estilo primitivo, de janelas abertas para a luz e para o ar. Leia mais »

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nov 07 2009

O prisioneiro da torre

Jorge Adelar Finatto

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O tempo é uma torre da qual somos prisioneiros.

Lidar com o tempo, domesticá-lo, é uma arte.

A distração é, talvez, a melhor maneira de aproveitar cada migalha de segundo. Esse estado de alma em que só pisamos no presente e sentimos que é bom estar vivo. Mas como fazer para viver por inteiro nesse mundo?

O rosa da nuvem sobre o azul. Essa é a visão que tenho aqui da torre.  A janela é muito alta. No início a gente estranha. Depois acaba se acostumando. Até a solidão mais dolorosa perde força, passa a fazer parte da casa. Vive-se.

A obsessão com a passagem do tempo só gera mais tempo perdido. A evasão de nós mesmos, o foco em alguém ou algo fora de nós, é uma coisa que pode diminuir a brutal sensação de esvaziamento. Leia mais »

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out 31 2009

A invisível paisagem

Jorge Adelar Finatto

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1º de novembro. A transcendência derrama suas fontes.
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No  fundo da pedra habita o azul.
 .
Em breve chegarão os ventos, a travessia para o silêncio.

O que há nesse início de primavera que desvela o íntimo das coisas?

O passageiro do tempo está povoado de ausência. Mas tem os olhos na estrela.

Para onde vão os seres que descem sem amparo a correnteza? 

Nascer a duras penas de uma mulher é só o começo.

Depois vem o oco do mundo.

Luz amiga de novembro, faz renascer o ofício da esperança!

Há mistério na concentração de matéria e água entre os paredões.

Vozes do começo do mundo dormem no cerne do basalto. Mas nesse lugar só se escuta o ruído da água correndo para o abismo.

O aroma das plantas expande a delicadeza.

Tudo tão bonito, tão frágil.

A queda vertical amanhece de antiquíssimos derramamentos vulcânicos. Leia mais »

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out 24 2009

Jogos Olímpicos de 2016 e a falta de democracia na distribuição de recursos públicos

Jorge Adelar Finatto

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O raro leitor está no justo descanso de fim de semana. Desembarcamos na ilha-refúgio de dois dias quase sem fôlego.  A rude lida da sobrevivência leva ao limite nossa paciência e capacidade de resistência. 

Tudo que se quer nessa hora é estar perto das pessoas amadas. Um bom descanso, no sofá ou na velha cadeira de balanço, uma revista, um livro.

Não deve o cronista importunar o santo repouso do leitor. Os temas tratados hão de ter alguma leveza, trazer um pouco de ar fresco.

Quero falar de um assunto que me atormenta e que gostaria de compartilhar. Acho que a sociedade brasileira, você, eu, todos nós, deveria ter sido consultada sobre a realização dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro em 2016. Motivo: a extraordinária soma de dinheiro público que será utilizada no evento. Fala-se algo em torno de R$ 29 bilhões.

A cidade maravilhosa foi escolhida sede da Olimpíada em Copenhague, na Dinamarca, no último dia 02 de outubro, vencendo as concorrentes Madri, Tóquio e Chicago. Mas terá sido mesmo uma vitória  ou, antes, um alívio para as cidades preteridas, porque não terão de gastar essa babilônia em meio a uma das piores crises econômicas que o mundo já conheceu ?   Leia mais »

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out 17 2009

A volta dos sabiás

Jorge Adelar Finatto

 

Os sabiás estão cantando a primavera.

Não sei se existe no mundo cidade com tantos sabiás como Porto Alegre. Todos os dias eles modulam o amanhecer com seu canto.

Os concertos a céu aberto começam no átrio das auroras, em setembro, e seguem pelas manhãs e tardes até o outono.

Na rua onde moro, os primeiros acordes surgem por volta das 4h. Um coral de muitas vozes inaugura aos poucos o nascer do sol.

Os sabiás nos oferecem a música do começo do mundo. Iluminam com sua arte natural até mesmo os corações e lugares mais tristes. Leia mais »

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out 13 2009

Canção da bruma

Jorge Adelar Finatto.

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Senhor

quando chegar

a minha vez

de cruzar a ponte

deixa eu levar comigo

no alforje de nuvem

os dias de sol

 

as tardes

de outono

 

os pinheiros

da serra

onde nasci Leia mais »

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out 10 2009

Viagem ao interior de uma pintura

Jorge Adelar Finatto

 

 

Saiu caminhando do quadro de Vincent Van Gogh.  Atravessou a vereda escondida e apareceu do outro lado, entre buganvílias e quaresmeiras. Trazia o alforje amarelo ao ombro.

A luz dourada escorre entre os ramos. Os postes acendem as primeiras luzes. Está em Passo dos Ausentes outra vez. É bom voltar pra casa no início da primavera. 

Durante o tempo que passou na pintura, fez longas caminhadas. Pernoitava no saco de dormir ao lado dos montes de feno. Sua roupa está impregnada com o cheiro suave das ervas. 

O belo e sofrido território da alma do pintor sempre o fascinou, fazendo-o sentir, pensar, sentir. Vincent construiu seu universo à luz de uma mirada visceral, menos autocomplacente, mais colorida e mais humana. 

A obra de Van Gogh, que morreu na miséria, pertence a toda humanidade, não se limita a uma nacionalidade nem ao continente europeu. Leia mais »

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set 26 2009

Canção árabe

Jorge Adelar Finatto

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Somos o inventário das nossas recordações.

A memória é um dos mais preciosos bens que temos na vida. É ela que nos garante uma face entre bilhões de outras pessoas.

Sem a memória nos perdemos na bruma do oblívio e da ausência.

Essa coleção de lembranças compõe o acervo das emoções e sentidos de que somos construídos. Os quadros desta longa galeria interior nos tornam seres únicos.

Das lembranças mais sensíveis que carrego da infância, uma tem relação com o modo árabe de ser. Menino de quatro, cinco anos, acompanhava a avó nas compras da casa. Além da fruteira e armazém, às vezes íamos até a loja dos irmãos Omar e Chauki, no centro da cidade interiorana. Eles vendiam roupas e tecidos.

Omar nos recebia na porta com um largo sorriso branco coberto pelo bigode preto. A expressão de Omar era uma tenda ensolarada em meio à obscuridade do dia. Durante a apresentação dos produtos os irmãos abordavam a origem das peças, qualidade, preços. Falavam com forte sotaque. Não sei de que país eles tinham vindo.

Os irmãos árabes tinham certo jeito no trato, uma alegria sincera, uma maneira doce de receber que faziam com que nos sentíssemos num oásis. Leia mais »